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O que acontece com a nossa visão no escuro?

Oi biologuínhos, tudo bem? Já parou para pensar no que realmente acontece com os nossos olhos quando apagamos a luz e tentamos enxergar no escuro? A transição da visão diurna para a noturna é uma verdadeira maratona fisiológica dentro das nossas retinas, comandada por dois tipos de células fotorreceptoras especializadas: os cones e os bastonetes.

Em condições de boa luminosidade, a visão fotópica (diurna) é dominada pelos cones. Eles são menos sensíveis, mas nos fornecem visão de alta resolução e cores, graças à presença de três tipos de pigmentos (para azul, verde e vermelho). No entanto, quando a luz ambiente cai abaixo de um certo limiar – como em um quarto escuro ou sob o céu noturno –, os cones se tornam inúteis. É aí que entram em ação os bastonetes. Essas células são altamente especializadas para a visão escotópica (noturna). Elas são extremamente sensíveis à luz, capazes de detectar um único fóton, mas não discriminam cores, motivo pelo qual vemos em tons de cinza no escuro profundo (PURVES et al., 2001).

O processo de adaptação ao escuro, no entanto, não é instantâneo. Ele demanda um tempo precioso – entre 20 a 30 minutos para atingir a sensibilidade máxima – devido a uma complexa reação bioquímica conhecida como ciclo visual. No escuro, o pigmento dos bastonetes, a rodopsina, que é "clareada" pela luz, precisa ser completamente regenerada. Isso envolve a recomposição do componente retinal (derivado da vitamina A) com a proteína opsina, um processo metabólico que leva vários minutos (KOMMONEN, 1998). É por isso que, ao sair de um ambiente iluminado para um escuro, ficamos inicialmente "cegos", e nossa visão vai melhorando gradualmente.

Curiosamente, há uma pequena área no centro da nossa retina, a fóvea, que é densamente povoada por cones e quase desprovida de bastonetes. Por isso, no escuro absoluto, se olharmos diretamente para um objeto fraco, ele pode "desaparecer". A técnica para ver algo muito tênue é usar a visão excêntrica: olhar um pouco ao lado do objeto, para que sua imagem caça na periferia da retina, onde a concentração de bastonetes é maior. Portanto, enxergar no escuro é um triunfo da adaptação evolutiva, uma mudança de regime sensorial que sacrifica cores e detalhes para nos dar a sensibilidade mínima necessária para navegar em um mundo com pouquíssima luz, tudo graças à química lenta, porém poderosa, dos nossos bastonetes.

 

REFERÊNCIAS

KOMMONEN, B. The physiology of scotopic vision. Documenta Ophthalmologica, v. 95, n. 1, p. 1-10, 1998.

PURVES, D. et al. Neuroscience. 2nd ed. Sunderland: Sinauer Associates, 2001.

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